Contos e crônicas

CONSELHO É…

Conselho é, como bem se sabe, a opinião de alguém sobre algo ou alguma coisa da gente ou da nossa vida. Ou da vida de alguém, dependendo do ponto de vista de onde estivermos observando o conselho. O que é certo, e bem certo, é que o conselho só vai ter sua utilidade comprovada quando, bem mais velhos e experientes, olhando a vida já por detrás dos ombros, vislumbrarmos certos percalços certamente evitáveis.

Frase de Marie Von Ebner-Eschenbach: “Quando somos jovens, aprendemos. Quando ficamos velhos, entendemos”. Duro? Duro. Mas verdadeiro e simples como só a vida é.

A utilidade de um conselho é a mesma da experiência de uma pessoa para outra pessoa: nenhuma. A minha experiência, possa ela ser rica, bela, triste, forte, jamais servirá a alguém mais do que a mim mesma. É extremamente pessoal. Não se empresta e não se dá. E mesmo quando a gente vê alguém indo correndo, de braços abertos, sorriso no rosto, buraco adentro, fica difícil impedir que o tombo aconteça.  Você já deve ter experimentado a tristeza de ter visto isto antes. E ter esperado até que o acidente tenha acontecido, daí ido até ao buraco, estendido as mãos e retirado a pessoa de lá (se a pessoa quis, é claro). (Ou talvez você já tenha estado lá no buraco…).

Adolescentes, entre amigos, pedíamos conselhos uns aos outros. Mas cá para nós. Pedíamos conselhos aos amigos que sabíamos que dariam as respostas que queríamos ouvir. Jamais aos que iam nos contrariar. E se nos contrariavam que se danassem. Já conhecíamos as respostas de toda a maneira. Era tudo uma questão de confirmação apenas. De qualquer jeito, sobre garotas e garotos, só seguiríamos o que nossos hormônios mandassem na hora certa deles e pronto. Ponto!

Conselhos de pais? Estes em geral são unilaterais, vêm em sentido único, raramente esperam por um pedido. Não pedimos. Mesmo porque como eles poderiam ter a menor idéia da imensidão dos nossos sonhos? Como? Eles são tão velhos! Que idade eles tem? Trinta? Quarenta? Cinqüenta? Impossível compreender nosso jeito de sonhar, nosso jeito de ver as coisas, nossos desejos, nossa vocação, tudo o queremos para a nossa vida! E olha no que se transformaram…  E eles pensam o quê, em nos aconselhar? Para que, para fazer da gente alguém igual a eles? Eles… tão… velhos…

Sobre o tempo que passa e o efeito dos conselhos sobre filhos, pais, amigos, as duas palavras  que resumem o que os conselhos nunca farão por ninguém na juventude e que mais tarde tornar-se-ão um fardo para uma grande maioria: amadurecimento e arrependimento. Das muitas considerações sobre conselho, finalmente o que mais me vem à cabeça finalmente é o fato de que as pessoas que pedem conselho não querem conselho nenhum. Aliás, justamente, o fato de elas pedirem é a afirmação de que já tem dentro delas uma resposta e estão buscando uma afirmação, uma espécie de consentimento silencioso.

Neste caso, para os que pedem e para os que não pedem; para os que não gostam de dar conselho e para os que não podem viver sem dar conselho, o interessante seria apenas dar uma opinião sobre o assunto.

Mais ou menos assim

– Oi, será que você poderia me aconselhar sobre….

– Ah, sobre isto? Olha, vou pensar um pouco a respeito e a gente volta a conversar ok?

Mas nem pensar em contar a própria vida, as próprias derrotas e vitórias; todas as misérias, os troféus, as migalhas… Dê um tempo na sua novela e pense em quem perguntou a sua opinião… Sobre a novela “DELE (A)”.  E seja breve. Curto. E não fale de céu, nem de inferno e nem de purgatório. Aliás, de religião nenhuma. E nem de futebol e nem de política. (A não ser se este for o assunto, né!)

Ouvidos jovens são ouvidos surdos para conselhos. Ouvidos maduros são ouvidos reticentes para conselhos. Ouvidos velhos são ouvidos admirados para conselhos!

 

Imagem by Pixibay Public Domain

Você pode gostar também de

Sem comentários

deixe uma resposta