Contos e crônicas

CONFUSÃO DE RAIVAS E PENSAMENTOS

Falar sobre a raiva. O sentimento de cólera. Eu queria falar sobre aquela sensação um pouco estranha que é dizer sim com vontade de dizer não. Ou ficar quieto quando a vontade é de gritar. Não saber mais delimitar o próprio espaço. Aceitar golpes em troca da paz. A paz apodrecida.
Sentimento que embola no estômago, enjôa, tranca os intestinos, retém toda a água do corpo. Até mesmo as lágrimas. O cérebro e seu funcionamento cheio de explicações científicas, psicológicas, naturais, sem explicações…. registra simplesmente o fato de que algo não está bem: cadê o meu lugar nesta porcaria deste mundo? Por que me ignoram? Por que não me respeitam? Por que não posso ser eu mesmo sem que metade do mundo resolva me punir em consequência?
Raiva… bolos de raiva…. súbitos acessos de fúria… e tudo passa com sorrisos, respostas calmas, voz pousada… passa pra dentro. Passa pra dentro! Pra dentro! A raiva entra! Toda a raiva entra! E sem poder sair se transforma em tantas outras coisas… nenhuma boa.
Contou-me um amigo: “Meu pai comia com a gente todos os dias. E pelo menos duas vezes por semana minha mãe fazia carneiro. Um dia, dezessete anos de casado, dezessete anos comendo carneiro duas vezes por semana, ele cruzou os talheres, olhou para minha mãe e disse – ‘Eu não gosto de carneiro’ -. Você consegue imaginar quantas outras coisas ele não dizia também? Nossa, pra todos nós foi um susto!”

Meus pensamentos estão confusos. Estou procurando razões possíveis para haver iras guardadas por perto ou cuidadosamente escondidas. Mas também estou pensando se realmente quero encontrar estas razões. Ou encontrar as tais raivas.

Quem procura, acha. Assim diz o ditado. E o que acredito firmemente é que para tudo há uma consequência. Ou seja, se começar a cavar é bom estar preparado.

Muitos cadáveres já foram encontrados sob casas de gente boazinha.

Gente boazinha…

 

Imagem by Pabak Sarkar

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