Contos e crônicas

AMÉM

Quando eu era pequena não aprendi a rezar. As missas eram peças de teatro e só entendia o amém. Os pés descalços sobre os paralelepípedos quentes e sobre as calçadas estreitas, dentro e fora de casa as missas para dizer amém. Vidros de tinta e vasos e bolas de natal e um pirex cheio de gratin. Todos e eles e mais deles todos eles pássaros encantadores pássaros engaiolados sem cantar e a voar rasantes pelas salas. Nas missas de todo o dia onde rezar não se sabia, mas onde o amém era preciso, era carente e um presente, dizer amém para as vozes em liturgia e os gritos sem sintonia, reclamar anjos calada, recitar mantras inventados e sempre dizer amém. Nos escuros dias e nas paredes claras de sol e de lâmpadas, iluminações de missa, as velas contrapondo o medo na falta de luz, de tanta luz. E de ouvido a música apreendida era uma reza nem pedida, era uma reza desmedida, era o santo anjo da guarda e depois dele, dele o santo anjo do quadro e da ponte e das crianças, depois do santo anjo do senhor vinha o amém. Amém para depois da calmaria e antes da tempestade, amém.

 

Imagem by Yvone Pereira

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