Contos e crônicas

AINDA BEM QUE NÃO PEGA

Tem gente que é burra, mas tão burra, que infelizmente nem dá pra ficar magoado. Gente que nos faz mal mas só dá pra ficar com dó. E se pensar em xingar, esquece. Nem pensar em xingar com elegância, não serve pra nada…

Lembro de algo que aconteceu muitos anos atrás.

Meu pai, jornalista inflamado e abundante em seus adjetivos, entrou em casa e proclamou animadíssimo:

– Desta vez ele vai ver! Dei uma dura! Escrevi umas coisas sobre ele que não vai ter jeito… não vai agüentar e vai pedir demissão!! –

Olhei desconfiada, já conhecendo aquele seu jeito empolgado mas também sabendo que toda sua elegância estava bem além da pobreza de espírito de alguns…

– Pai, deixa eu ler, vai…

Ele me olhou, e orgulhoso esticou o jornal pra mim.

Peguei de suas mãos, ávida para ler a pedra que derrubaria a “infame” criatura que vinha destruindo a cidade e, por conseqüência, era o alvo e sua cruzada.

Fui lendo fascinada as linhas plenas de zombaria disfarçada que a airosidade de sua experiência não conseguia escrever em linhas realísticas um pouco mais realísticas. Alguns minutos depois levantei os olhos e disse:

– Pai, não vai adiantar nada.

– Como, não? Como não? – Ele falava completamente indignado.

– Ele não vai entender pai…

– Que é isto menina? Como não vai entender? Claro que vai! Vai entender e vai se demitir. Aquele vil, reles larápio… Ele há de cessar de dilapidar o dinheiro público… – E continuou seu discurso fervoroso.

Qual não foi sua surpresa e desgosto quando no dia seguinte o suposto futuro demitido bateu à porta e depois apoiou-se em seus ombros, todo sorridente, agradecendo “profundamente” o artigo no jornal e o apoio do “grande” amigo.

– Meu querido, só tu mesmo para escrever palavras assim! Obrigado viu! Vou te trazer um presentinho viu! – E tascou-lhe um exagerado abraço, saindo em seguida todo sorridente.

Meu pai, completamente estarrecido com o absurdo da coisa, deu aquele seu sorriso meio cansado, meio agradecido e calado ficou. Seus olhos me olhavam e me diziam da razão que eu tinha e que não deveria ter.

Para mim ficou a lição. Tem gente burra no mundo sim. Gente burra má, boa, sem jeito, esperta, gente bem ruim, ou mal intencionada. Gente burra que faz o mal por querer mesmo ou por circunstâncias difíceis de explicar. Mas tem gente burra! E algumas, minha gente, infelizmente,  não merecem nem lágrimas, nem tristeza e sequer mágoa. O tipo de burrice que faz com que a ignorância seja tão grande, mas tão grande, que somente ignorando se pode remediar. Ignorando, esquecendo e agradecendo o fato de que a burrice não pega!

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