Contos e crônicas

A UM (A) FILHO (A)

Nasceu de mim, ou diria melhor…brotou. Viu a luz pela primeira vez através dos meus braços e foi depois de cortado o laço que a união se fez maior.

Não há como separar a criatura que viveu do ventre daquele ventre que a nutriu.

Dos balanços dentro de meu corpo surgiram os balanços nos meus braços então inseguros com tanta responsabilidade.

Vi seu primeiro sorriso – alguns dizendo que nem era – que poderiam ser apenas caretas. Mas que importa? Vi também suas primeiras caretas e todos os sorrisos que vieram depois. Chorei junto e juntas caíram nossas primeiras lágrimas, pois imaginar a dor de quem não sabe dizer o que ou onde dói, é pior do que sentir a própria dor. Sequei aquelas e tantas outras lágrimas…

Vi seus primeiros passos, fiz festa, tive medo, quis pegar de volta e esconder dentro de mim antes que o mundo o pegasse, levasse e não me trouxesse. Ah, estes medos de mãe: do tamanho do mundo enquanto aquele que ali dá seus primeiros tropeços mal tem idade para saber que está no mundo!

Ouvi suas primeiras palavras! Balbuciando letras, tentando formar palavras, depois pequenas frases. E o jeito de quem já discursa e sabe que o mundo apenas espera por sua voz!

Sofri as penas de seus primeiros tombos, dos arranhões sobre a pele, os cortes rasos ou profundos, as quedas que me levavam junto e faziam de mim a criatura mais miserável da terra! A cada dor, cada gota de sangue, cada choro, quis eu mudar de lugar, me transformar naquele ser que não podia mais ser uno comigo.

Assisti seu crescimento. Via sua infância passar como se fosse um filme breve, tão rápida passou. Tantas informações: a escola, os amigos, as festas de aniversário, as brincadeiras, as perguntas, os sonhos, o tudo que se resumia no “quando eu crescer…”. Passou tão depressa…

Depois veio a adolescência, novamente os risos e os choros, mas já os segredos tomavam conta e o tempo dos amigos ganhou sobre o tempo que tínhamos para nós. Egoísmo de mãe eu bem quis em certos momentos, menos amigos… Mas foram pensamentos de segundos, logo depois vinha o desejo de cada vez mais amigos, mais bons amigos! Assisti desta vez numa distância precavida e não desejada, choros para os quais não pude emprestar meu ombro e nem doar meu coração. Mas vi também sorrisos e gargalhadas que encheram a minha vida de esperança e luz. Vi brilhar nos olhos o esplendor do primeiro amor. Com tristeza também o vi desaparecer e dar lugar ao sombrio desapontamento. Mas, experiência de mãe, ah! que não pode ser repassada pois conselhos não são sempre bem-vindos, sabia que o tempo daria jeito. E deu. Sempre dá.

Hoje vejo adulta a pessoa que chamo de filho (a). Continuo seguindo seus passos, nunca estou mais do que um passo atrás. Em alguns momentos, estou mesmo um passo adiante, esperando já, para abrir os braços e amparar. Vejo seu caminhar, admiro sua força, tenho orgulho de quem é.

Distâncias acontecem, aproximações também. É a vida. De repente me dou conta que já estive aqui exatamente neste lugar e vejo como a vida é perfeita. Em outras épocas, estive aqui e era eu que chamavam filha. Era para mim que queriam dar conselhos. Para mim que estendiam os braços.

Hoje sou eu quem olha para trás e sorri tentando não chorar ao lembrar o quanto já se foi. Sou eu quem olha para diante e, com o pensamento no presente, tenta guardar toda a força para tudo o que der e vier.

Um dia, nasceu de mim este (a) filho (a). A vida assim o quis, fosse eu o seu canal para aqui se expandir, crescer, ser o que é. E ninguém mais do que eu pode dizer o quanto de felicidade sinto por ter sido escolhida.

Filho (a), sabe o que é amor? É você! E sendo você o amor, tudo o que posso dizer da vida é que, graças a ela eu tenho amor.

Filho (a), esteja você onde estiver, sempre, saiba apenas de uma coisa: eu estou do seu lado. Olhe bem: eu estou do seu lado! Nunca longe, nunca perto demais: do seu lado!

E como eu também sou filho (a), também sou amor.

Por isto, ser que de mim brotou, sejamos este amor que a vida é um para o outro. Sempre!

E onde a vida o (a) levar, estique o braço se precisar de ajuda: minhas mãos estarão lá amparando os seus passos exatamente como quando andava nos seus primeiros anos.

Seja a sua vida como seus sonhos um dia quiseram que fosse!

Sua mãe

 

Imagem by CC0 Public Domain

 

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